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Caça em assentamento rural no Sul da Floresta Amazônica
Neste trabalho
investiguei os efeitos sobre as populações locais de mamíferos
silvestres das atividades de caça praticadas por sitiantes de um
assentamento rural na Floresta Amazônica do norte do Estado de Mato
Grosso. A segunda parte do Assentamento Japuranã, na qual foi
realizado este estudo, foi ocupada ha três anos. Entrevistas formais
foram realizadas com 17 moradores. Informações adicionais foram
coletadas informalmente, durante todo tipo de contato com assentados
durante o período de estudo. A maioria dos assentados são
provenientes dos estados do Sul e Sudeste do Brasil. Tipicamente,
são trabalhadores rurais, semi-analfabetos, com baixa renda mensal.
As principais técnicas de caça praticadas são a “espera”,
“cachorros” e “excursão”. A carne de caça se mostrou um elemento
importante na alimentação aparecendo em cerca de um terço das
refeições. A atividade de 14 caçadores foi monitorada entre maio e
novembro de 2003, neste período eles abateram 113 mamíferos de 17
espécies. Análises da estrutura da população baseadas em crânios
foram possíveis para apenas as espécies de porco-do-mato,
Tayassu pecari
(queixada) e
Pecari
tajacu (cateto). A análise
indicou que a situação da estrutura da população do T.pecari e do
P.tajacu é sensível e poderia seriamente ser afetada se a pressão da
caça aumentar. Estimou-se a extração de 4096,3 kg de
biomassa em uma área de aproximadamente 38 km², representando um
consumo médio de carne de 0,268 kg/pessoa por dia. Levantamentos
populacionais de transecção linear foram realizados em três pontos,
dois no assentamento e um em uma área vizinha de floresta contínua,
como “controle”, na qual a caça não é praticada. Num percurso total
de 108
km, foram registradas quinze espécies de
mamíferos e quatro de aves, com taxas de avistamento relativamente
altas em comparação com outros sítios da Amazônia central e
oriental. Entretanto, a riqueza de espécies e sua abundância foram
maiores em ambos os pontos do assentamento em comparação com o
controle. A abundância de ungulados (porcos-do-mato e veados.), os
principais alvos dos caçadores, também foi maior no assentamento
(ambos os pontos de coleta) em comparação com o controle. Isto
sugere claramente que a caça ainda não teve um impacto significativo
sobre as populações de mamíferos do assentamento, em termos de sua
abundância, pelo menos. A maior parte da atividade de caça foi de
subsistência (85,8%), a restante foi para o controle de animais
predadores de criações domésticas (8,0%) ou depredatória (6,2%),
neste caso, basicamente para a proteção dos cachorros durante
perseguições. Apesar desta pressão, a abundância relativa de
mamíferos na área do assentamento sugere que a caça seja sustentável
a curto prazo (três anos), possivelmente em função da abundância
natural de mamíferos na região, e a densidade populacional humana
ainda baixa. Entretanto, esta situação pode durar pouco, já que o
desmatamento e a conseqüente fragmentação de hábitat na área do
assentamento é um processo contínuo, e a caça ocorre sem qualquer
controle. Os resultados deste estudo fornecem uma base importante
para o desenvolvimento de planos de manejo para a fauna local,
envolvendo a comunidade local, órgãos fiscalizadores, o governo e
instituições de pesquisa. Serão fundamentais tanto para conservação
das espécies como pelo melhor aproveitamento dos recursos de caça
pelos sitiantes locais.

Caçador colocando
sal para atrair catetos (Pecari tajacu) e queixadas (Tayassu pecari)
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